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Engenharia: um sector em mutação

Engenharia: um sector em mutação

É uma das áreas que mais tem chamado a atenção dos recrutadores internacionais para as universidades Portuguesas, mas os profissionais de Engenharia enfrentam múltiplos desafios. Se áreas como as Tecnologia de Informação rondam o pleno emprego, outras há que obrigaram muitos diplomados à reconversão profissional, como foi o caso dos engenheiros civis empurrados para o desemprego pela crise do imobiliário. A Engenharia é uma profissão em mudança, com distintas velocidades de criação de emprego. Para os especialistas, o seu futuro passa pela flexibilidade e para formação permanente.

08.04.2016 | Por Cátia Mateus


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A engenharia portuguesa, e a qualidade do ensino nacional nesta área, têm atraído para o país os holofotes de muitas empresas multinacionais de vários sectores de atividade. Muitas recrutam profissionais portugueses para as suas operações internacionais. Outras trazem para solo nacional os seus centros de decisão e as suas estruturas operacionais, integrando profissionais portugueses. A Engenharia made in Portugal é bem cotada no estrangeiro e seus profissionais não têm dificuldade em encontrar emprego no estrangeiro, mesmo em economias fortes e competitivas. Mas por cá, as várias áreas de especialidade da Engenharia evoluem a velocidades distintas em matéria de criação de emprego. Aquela que durante anos foi a área de especialização que acolheu maior número de profissionais - a Engenharia Civil - ainda não recuperou do embate recente gerado pela crise do sector imobiliário nacional, e continua a registar uma dinâmica de recrutamento muito moderada por parte das empresas. Mas nos últimos anos, novas áreas de especialização se posicionaram na mira dos recrutadores. Para os especialistas, o mercado está em mudança e os seus profissionais podem tirar partido dos novos contextos.

“O mercado de trabalho na área da Engenharia tem sofrido uma evolução muito positiva e até exponencial”, explica Carla Rebelo, diretora-geral da Adecco Portugal. Segundo a especialista em recrutamento, “Portugal é claramente visto como um dos países que mais investe na formação de profissionais qualificados nos vários ramos da Engenharia”, sendo esse um esforço reconhecido pelos outros países.

Carla Rebelo não tem dúvidas de que Portugal forma quadros altamente qualificados e de elevada qualidade técnica, mas foca o seu discurso sobre as dinâmicas de contratação do sector na área das Tecnologias de Informação. Com efeito, a dinâmica das contratações registada nesta área nos últimos anos contrasta com procura das empresas por engenheiros civis. Mas há um meio termos entre estes dois pólos. Por outras palavras, há especialidades da engenharia que no recente contexto de crise souberam conquistar um novo fôlego no mercado de trabalho e tornar-se atrativas para as empresas.

Carlos Sezões, partner da consultora de recrutamento Stanton Chase, aponta áreas de especialidade como a Engenharia Mecânica, a Eletrotécnica e a Industrial que, confirma, “são neste momento muito requisitadas pelo mercado” fruto da crescente dinâmica da indústria nestes sectores e da aposta das instituições de ensino nacionais num ensino inovador e alinhado com as melhores práticas internacionais.

Inovação no ensino
O Instituto Politécnico de Leiria é um exemplo desta aposta. O Instituto que soma mais de 600 diplomados na área da Engenharia Automóvel, inaugurou no último mês um dos mais avançados laboratórios de Engenharia Automóvel a nível nacional. O projeto que resultou da ampliação de um espaço já existente visa dar resposta ao crescimento da procura desta área de ensino. Pedro Martinho, diretor da Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Politécnico de Leiria, salienta que “o acompanhamento das tecnologias atuais, principalmente nas áreas das engenharias, é fundamental para a formação dos estudantes. Ter boas condições laboratoriais, para além de essencial na aplicação prática dos conhecimentos teóricos, e para um ensino que se quer de qualidade, capacita-nos também para uma melhor investigação e, consequentemente, melhor transferência de conhecimentos para a indústria”.

Um impacto que o especialista que a nova estrutura ajude a ampliar, contribuindo ativamente para a integração dos profissionais formados na instituição. A licenciatura em Engenharia Automóvel da instituição viu aumentar nos últimos anos o seu número de alunos, com 53 novos ingressos no último ano letivo, tal como o Mestrado na mesma área e o curso técnico superior profissional em Tecnologia Automóvel, comprovando o interesse crescente dos alunos desta área de especialidade.

Para Carlos Sezões, há velocidades distintas de evolução das oportunidades profissionais que colocam desafios acrescidos ao sector da Engenharia. “Temos cada vez mais empresas técnica e tecnologicamente mais sofisticadas em sectores tecnológicos, indústria (especialmente a designada Indústria 4.0, cada vez mais digital e robotizada) e energias que crescem e procuram mais e melhores competências de engenharia”. por outro lado, temos outros sectores ditos mais tradicionais, como a indústria pesada ou a construção/ engenharia civil que evoluem a uma velocidade inferior”, esclarece o especialista em recrutamento. Apesar disso, Carlos Sezões não tem dúvidas de que a área das engenharias continua a ser uma área de empregabilidade “muito saudável, com uma tendência de procura crescente nos últimos cinco anos”.

Luís Caldas de Oliveira, vice-presidente do Instituto Superior Técnico (IST) com tutela da área de Empreendedorismo e Ligações Empresariais da instituição, corrobora a análise, ainda que confirme a existência de desafios e de mudanças de fundo no alinhamento dos futuros engenheiros face à profissão (ver entrevista). A procura dos vários cursos de Engenharia disponíveis no IST tem aumentado e no último concurso nacional de acesso ao ensino superior a instituição preencheu a totalidade das vagas. Cerca de 49% dos candidatos foram colocados na sua primeira opção. Mas para o vice-presidente, “é mais importante o talento do que uma formação específica”. Tanto mais que, como faz questão de realçar, “a principal competência que um engenheiro tem de ter é a flexibilidade. Com o ritmo de mudança atual, nenhum engenheiro consegue prever as áreas em que irá trabalhar ao longo da sua vida profissional”. 

Para Luís Caldas de Oliveira, “uma especialização será sempre necessária, mas tem de ser acompanhada por umas bases sólidas e uma preparação tecnológica diversificada que lhe permita acompanhar a mudança”. O docente reforça ainda que “uma área de especialização muito valiosa no presente, poderá no futuro ser automatizada”, pelo que a capacidade de adaptação e uma postura empreendedora face a carreira é cada vez mais determinante.

"É mais importante o talento do que uma formação específica"
O vice-presidente do Instituto Superior Técnico (IST) com tutela da área de Empreendedorismo e Ligações Empresariais, Luís Caldas de Oliveira, traça o panorama do ensino nacional da engenharia e fala da necessidade dos futuros engenheiros estarem disponíveis para a mudança e para a atualização constante de conhecimento.

Olhando para a realidade do Instituto Superior Técnico, que especialidades da engenharia estão a registar maior procura por parte dos jovens?
Há cursos mais pequenos que se destacam na procura pelos candidatos a alunos do Técnico, como o de Engenharia Aeroespacial, Engenharia Física Tecnológica e Engenharia Biomédica, mas há uma elevada procura por quase todos os cursos.

As escolhas dos alunos são, na sua opinião, compatíveis com as necessidades do mercado?
Do nosso contacto permanente com os empregadores temos a noção de que é muito mais importante o talento do que uma formação específica. Todos os cursos do Técnico tem uma sólida base analítica, são difíceis, trabalhosos e há um grau de exigência elevado. Os nossos candidatos sabem que não vão ter uma vida fácil e o que o empregador vê nos nossos candidatos é o resultado disso.

Que análise faz da evolução do mercado de trabalho na área das engenharias?
Penso que o mercado nacional está a levar tempo a perceber a enorme procura que existe no mundo pelos diplomados em engenharia e que a oferta salarial, apresar de crescente, não se está a ajustar ao ritmo certo. Os nossos inquéritos referem que a remuneração média dos nossos recém-diplomados é de 1228 euros em Portugal e 2850 euros no estrangeiro. Não sei se a razão será exclusivamente a diferença salarial, mas cerca de 20% dos diplomados optam por iniciar a sua carreira profissional no estrangeiro. Há cursos em que esse valor chega aos 40%.

Podemos falar de uma recuperação do emprego a várias velocidades nesta área?
Não penso que se trate de um processo de recuperação. O que a crise económica veio demonstrar foi que algumas áreas de negócio, como é o caso da construção, tinham um peso desproporcionado na economia portuguesa, em grande medida resultante de opções de investimento público. A alteração resultante da crise financeira foi um ajuste nessa áreas que colocou um número significativo de engenheiros com experiência à procura de outras oportunidades.

Que impacto gerou esta mudança nos jovens engenheiros?
Teve impacto sobretudo na empregabilidade dos recém-diplomados nessas áreas, obrigando-os a perceber o potencial que tem a sua formação de base que lhes permite enveredar por áreas complementares. Temos vários exemplos de diplomados que em seis meses juntaram ao seu currículo competências relacionadas com a economia digital (data science, business intelligence, etc). Esta mistura de competências é extremamente valorizada pelo mercado.



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