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Chegar ao topo para ganhar menos

Chegar ao topo para ganhar menos

Mulheres portuguesas em cargos de topo podem ganhar menos 20% do que os homens.

12.03.2018 | Por Cátia Mateus


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A percentagem de mulheres que chegam a cargos de topo em grandes empresas nacionais não chega aos 15%, segundo dados esta semana divulgados pela Informa D&B. E as que lá chegam, mesmo se detentoras de qualificação superior ou cursos de formação executiva (MBA), podem ganhar até 20% menos do que um homem nas mesmas funções e com igual grau de qualificação. Na verdade, os estudos disponíveis demonstram que quanto maiores são as qualificações dos profissionais, maior a desigualdade salarial entre homens e mulheres no desempenho dos mesmos cargos. E este fosso salarial não é uma característica apenas do mercado de trabalho nacional. O Financial Times analisou os salários dos gestores (homens e mulheres) que frequentaram os MBA listados no seu ranking anual, três anos após a conclusão do curso, para concluir que, no Reino Unido, uma mulher que exerça um cargo de topo leva para casa apenas 80% do salário mensal auferido por um homem, na mesma posição.
 
Um MBA é uma das ferramentas mais eficazes para alcançar posições de topo na carreira e, consequentemente, uma valorização salarial. Mas para as mulheres esse caminho pode não ser tão linear. Apesar do seu interesse crescente pela formação executiva, a mulheres continuam a estar sub-representadas nos MBA. A análise anual realizada pelo Financial Times ao seu “Global MBA Ranking”, a lista dos 100 melhores MBA mundiais elaborada anualmente pelo jornal - de onde consta na 80ª posição o português The Lisbon MBA (fruto de uma parceria entre a Nova SBE e a Católica-Lisbon), demonstra que as mulheres representavam apenas um terço do total de alunos destes cursos. E feitas as contas, três anos após a conclusão da sua formação, elas ganhavam menos do que os seus pares masculinos. 
 
O fosso tem vindo a agravar-se. As contas do Financial Times demonstram que em 2014, uma mulher com MBA a exercer um cargo de primeira linha (presidência ou direção-geral de uma empresa), levava para casa todos meses 87% de um salário masculino. Em 2018, já só recebe 81% do que receberia um gestor, homem, a desempenhar a mesma função. A análise do Financial Times reconhece que há benefícios salariais e de carreira decorrentes de apostar numa formação executiva, mas admite que “há claras evidências de que o MBA aumenta o fosso salarial entre homens e mulheres”. 

Qualificação acentua ?disparidade salarial
Em Portugal, Carlos Sezões, sócio (partner) da empresa de recrutamento de executivos (executive search) Stanton Chase, estima que “uma mulher ganhará em média menos 10% a 20% do que um homem, dependendo das funções e da qualificação”. E esta questão da qualificação é para o especialista em recrutamento particularmente relevante. “A disparidade tenderá a ser maior numa relação direta com o nível elevado de qualificações e de importância das funções desempenhadas”, explica. Nas funções de base, menos qualificadas, a diferença está segundo Carlos Sezões a desaparecer. Mas em funções mais qualificadas, como as lideranças de topo, “ainda subsiste com maior relevância”, podendo atingir os dois dígitos.
 
Nuno Tinoco Fraga, especialista em recrutamento de executivos e líder da Hire & Trust, confirma uma “discrepância salarial entre homens e mulheres mais acentuada nos cargos de topo”. Mas enfatiza que “a diferença salarial é mais evidente em empresas que possuem práticas de gestão de recursos humanos desadequadas e antiquadas”. Certo é que em Portugal, o acesso das mulheres a cargos de liderança, independentemente das qualificações, também é um retrato de desigualdades. Continuam a existir sectores mais femininos do que outros e profissões mais femininas do que outras. Num e noutro caso, a liderança não é o paraíso para as mulheres. Só nas microempresas, muitas vezes resultantes de projetos de autoemprego, é que as mulheres têm maior predominância em cargos de topo. Nas pequenas, médias e grandes empresas, a paridade é uma miragem (ver texto ao lado).
 
Para Nuno Tinoco Fraga estamos perante um efeito de bola de neve. “Muitas vezes para o acesso a cargos de topo é requisito o profissional a recrutar ser detentor de um MBA. É um facto que há um maior número de homens a frequentar MBA's”, explica acrescentando que tipicamente estes cursos são frequentados por profissionais entre os 30 e os 40 anos. Nesta faixa etária, argumenta, “é mais complicado para uma mulher do que para um homem conciliar a sua vida profissional com a exigência de um MBA. Isto porque é a fase da maternidade, e muitas vezes a exigência e absorção de um filho nos seus primeiros anos de vida, juntamente com a carreira profissional, tornam a frequência de um MBA muito difícil”. O gestor reconhece que “a sociedade portuguesa ainda tem uma vertente machista e nesse contexto, é considerado normal que para a mesma função, um homem ganhe mais do que uma mulher”.
 
Uma ideia que Joana Gíria, presidente da Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE), combate veemente. “Em 2015, a diferença entre a remuneração média mensal base das mulheres e a dos homens foi, em termos absolutos, de cerca de €165 mensais, e a diferença entre a remuneração média mensal ganha das mulheres e dos homens foi de cerca de €240 por mês”, explica acrescentando que é importante não esquecer que “esta diferença tem impacto nas reformas, o que significa maior risco de pobreza das mulheres face aos homens”. A presidente da CITE recorda que segundo o Eurostat, em 2016, uma mulher trabalhadora recebia em média um salário 17,5% inferior ao de um homem na mesma função. E enfatiza, mesmo perante a ausência de dados específicos relativos aos detentores de MBA, que “a diferença salarial entre homens e mulheres é menor na base do que no topo das hierarquias”. 
 
Ao nível dos quadros superiores, explica Joana Gíria, “a remuneração média mensal de base das mulheres representava, em 2015, em Portugal, 73,6% da remuneração dos homens, enquanto o ganho representava 72,1% face à média dos homens”.  A diferença salarial entre géneros é mais acentuada nos níveis de escolaridade mais elevados e em atividades onde a participação feminina é maior. Reportando a números de 2015, a presidente da CITE, recorda que “ao nível do 1º ciclo do ensino básico, a remuneração média mensal de base das mulheres representava 87,5% da remuneração média mensal de base dos homens e o ganho médio mensal representava 82,8% do ganho dos homens. No grupo dos licenciados, a diferença aumentava para os 71,7% e 70,7%, respetivamente”. Joana Gíria diz continuar a aguardar pela discussão de uma proposta de lei do Governo com vista a aprovar medidas de promoção da igualdade remuneratória entre homens e mulheres, por trabalho igual ou de igual valor.

Gestão feminina longe das grandes empresas
Nos últimos anos, o mercado de trabalho nacional registou progressos em matéria de paridade de género na sua força de trabalho, muito embora os dados mais recentes da Organização Internacional do Trabalho (OIT) continuem a confirmar desigualdades entre homens e mulheres no emprego em território nacional. No arranque do ano, as mulheres representavam 52,4% da força de trabalho nacional, contra 68% de homens. A desigualdade entre ambos é a mais baixa de que há registo desde 1990 e a OIT prevê que continue a diminuir. Os maiores problemas colocam-se no acesso a posições de chefia. 
 
No exercício do poder, as mulheres estão sub-representadas e a sua presença vai diminuindo à medida que aumenta a dimensão das empresas. Segundo o último estudo “Participação feminina na gestão das empresas em Portugal”, esta semana divulgado pela Informa D&B, a liderança feminina só está em maioria nas microempresas, onde 30,6% das posições de primeira linha (direção executiva ou presidência) estão nas mãos de mulheres. Nas grandes, médias e pequenas empresas, só em 16% dos casos elas chegam a posições de direção. 
 
“O estudo mostra duas realidades do tecido empresarial português no que toca ao protagonismo feminino nos poderes de decisão: por um lado as microempresas, onde as mulheres estão a ganhar relevância e, por outro as Pequenas e Médias Empresas e as grandes empresas, onde a sua participação ao nível da gestão se vai reduzindo à medida que aumenta a dimensão da empresa”, explica Teresa Cardoso de Menezes, diretora-geral da Informa D&B.
 
Poucas mulheres nas ?empresas cotadas
Nas pequenas empresas portuguesas 24,2% dos cargos de gestão/administração são ocupados por mulheres. O número desce para os 19,2% nas empresas de média dimensão e para os 14,7% nas grandes empresas.É nas empresas cotadas em Bolsa que a presença de mulheres em cargos de topo é mais residual. Só 12,2% das mulheres têm presença nos Conselhos de Administração das empresas cotadas. 

O valor é baixo, sobretudo se tivermos em conta que até 2020 a participação das mulheres nos conselhos de administração destas empresas terá de cumprir os 33,3%, mas merece destaque o facto de ser o dobro do registado há seis anos atrás. Entre as empresas cotadas analisadas no estudo da Informa D&B, apenas cinco atingiram já a fasquia dos 33,3% de mulheres nos Conselhos de Administração. Seis empresas têm entre 20% e 33,3% de líderes femininas e 14 têm menos de 20% de mulheres nas suas estruturas de decisão. “Em quase metade das empresas cotadas (19 empresas) não existe nenhuma mulher nos Conselhos de Administração”, assume Teresa Cardoso de Menezes.

Os sectores que concentram a maior percentagem de mulheres em cargos de gestão são, segundo o estudo, os Serviços (37%) e o Retalho (34%). Dentro dos serviços, a presença das mulheres é maioritariamente notada nas áreas da beleza, saúde e educação.


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