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Angola recruta em Portugal

Angola recruta em Portugal



28.10.2011 | Por Cátia Mateus

Na última década centenas de portugueses altamente qualificados rumaram a Angola em busca de uma carreira. O país que tem vindo a registar níveis de crescimento económico estrondosos, prevendo o FMI que supere mesmo a China no próximo ano, tem falta de profissionais qualificados em várias áreas e sectores de atividade e está disposto a pagar bem para suprir esta necessidade.

Portugal e Angola mantêm há muito uma relação de proximidade. Nos últimos anos, fruto do estrondoso crescimento económico do país muitas empresas portuguesas abriram os seus mercados ao território Angolano. Um fluxo que se fez acompanhar do aumento de profissionais portugueses a trabalhar em Angola. Com feito, o país possui uma manifesta carência de quadros técnicos qualificados que tem procurado colmatar recrutando no estrangeiro. Engenheiros, arquitetos, advogados, profissionais de saúde, gestores, professores, informáticos, financeiros e um sem número de outros perfis profissionais portugueses estão a investir neste mercado cujo potencial de crescimento é incalculável.


Segundo dados do Consulado Português em Angola há cerca de 91.900 cidadãos lusos registados naquele país, mas ninguém sabe ao certo quantos lá trabalham efetivamente. Entre 2009 e 2010, os registos consulares indicam um crescimento de 17.300 portugueses no território. Independentemente dos números, a realidade é que o investimento das empresas portuguesas em Angola e a boa relação entre ambos os países tem aberto as portas da oportunidade aos profissionais portugueses que aspiram a uma carreira além-fronteiras.


Ana Cardoso é administradora do Grupo Egor e Diretora de Recrutamento e Seleção. Para a especialista este movimento de portugueses para Angola encontra várias justificações. “A falta de profissionais qualificados faz com que o país tenha de recorrer a profissionais estrangeiros e, nesse sentido, os portugueses saem privilegiados pela língua, mas também por uma maior aproximação cultural que são elementos facilitadores de integração e aceitação”, argumenta a especialista enfatizando ainda que “muitas das empresas que estão em Angola são portuguesas, reproduzindo-se um modelo por vezes já existente em Portugal, destacando elementos com know-how e que irão, também, numa perspetiva de formação e orientação”.


Da comunicação à advocacia, passando pela construção há oportunidades de trabalho para todos os sectores em Angola, mas segundo Ana Cardoso a construção sai a ganhar. “As oportunidades são transversais, mas a construção civil, a logística, transportes, telecomunicações, banca e hotelaria são os sectores onde temos assistido a um aumento do recrutamento de quadros médios e perfis técnicos”, esclarece. Para a especialista, começa a notar-se também uma maior solicitação nas áreas das vendas e marketing, informática e também para as funções de gestão de recursos humanos.


E as oportunidades podem ser interessantes. “As empresas com uma dimensão considerável e estruturadas podem oferecer toda a logística para acomodação e instalação dos novos colaboradores”, refere. Aluguer de casa no centro de Luanda, com uma empregada de serviço ou uma casa partilhada por vários colaboradores são soluções comuns. Vulgar é também que a empresa contribua para a alimentação do colaborador que recruta e que pague as suas viagens a Portugal a cada três ou seis meses. Os tradicionais seguros de saúde fazem também parte do pacote de negociação salarial e em muitos casos, dependendo do cargo, o colaborador pode ter direito a viatura para deslocações ou motorista.


Em termos salariais, Ana Cardoso refere que se tem vindo a assistir a uma mudança dos pressupostos de remuneração, nomeadamente para níveis mais baixos. Uma realidade que deriva do equilíbrio da oferta e da procura. “Em Angola, como noutros mercados emergentes, começa a haver uma política mais agressiva na contratação de quadros portugueses. Em termos médios, para quadros superiores a remuneração mensal situa-se em USD 10.000, para quadros médios USD 6.000 e para técnicos especializados USD 3.000”, explica Ana Cardoso.


Valorizados e muito credibilizados, os profissionais portugueses não têm, regra geral, grandes dificuldades em conseguir emprego com condições aliciantes em Angola. Para além da língua (uma vantagem indiscutível), conseguem deter as competências técnicas e assumir comportamentos ajustados à cultura local. O mercado valoriza também a capacidade nacional de ser bem sucedido em contextos por vezes imprevisíveis, complexos e pouco estruturados que implicam polivalência, improvisação e resiliência.



E apesar do presidente Angolano, José Eduardo dos Santos, ter anunciado recentemente que o PIB do país crescerá abaixo do previsto para 2011, ficando-se pelos 3,7%, o país mantêm-se fora da recessão global e deverá continuar a gerar oportunidade em vários setores. Exemplos disso são a indústria transformadora que cresceu cerca de 8% e o turismo, com uma evolução positiva na ordem dos 16,1%.



Dicas

O mercado angolano não é um bicho de sete cabeças, mas requer alguma estratégia. Apesar da proximidade histórica e linguística entre Portugal e Angola há alguns factores a ter em conta antes de decidir emigrar para este destino. Apesar deste ser um país de oportunidades é também de elevadas exigências e onde, regra geral, só os melhores triunfam profissionalmente. Terá boas oportunidades de alcançar o topo se mostrar que está empenhado em ajudar o país a avançar, se for proativo, empreendedor, trabalhador e não se acomodar.

À parte das questões de perfil, há outras mais práticas. Trabalhar num país estrangeiro, seja qual for, levanta sempre alguns problemas. Encontrar habitação (se a empresa não a fornecer), perceber quais as reais condições de trabalho, o perfil da empresa, assegurar as questões de saúde, os contratos e todos os outros aspetos do dia-a-dia, são etapas que não pode negligenciar se quiser ter uma integração bem sucedida. É necessário obter informações sobre a empresa, nomeadamente em termos de estabilidade financeira e condições que oferece. Todos estes pontos devem estar previamente acordados.

Depois, há também que acordar todas as outras regalias como viatura de serviço, telemóvel, acesso à internet, viagens a Portugal entre outros, antes da assinatura de qualquer contrato. Igualmente importante é conseguir um bom seguro de saúde porque o sistema médico angolano ainda está algo deficitário.



Obrigações Legais

Para trabalhar em Angola é necessário um visto de trabalho, que implica uma carta convite da empresa a integrar e é também necessário ter todas as vacinas obrigatórias em dia. A Lei Geral de Trabalho vigente em Angola é a Lei nº 2/2000 de 11 de fevereiro que é aplicável a todos os trabalhadores em território angolano. São exceção os funcionários públicos, trabalhadores com vínculo permanente ao serviço das representações diplomáticas ou consulares doutros países ou de organizações internacionais; associados das organizações não-governamentais, trabalhadores familiares, ocasionais; consultores e membros do órgão de administração ou de direção de empresas ou organizações sociais, desde que apenas realizem tarefas inerentes a tais cargos, sem vínculo de subordinação titulado por contrato de trabalho (ARTIGO 2. – Exclusões do âmbito de aplicação). A lei geral de trabalho angolana presume a existência de um contrato de trabalho, nos casos em que não exista nenhum documento escrito que ateste nesse sentido, bastando para tal a existência de alguém que esteja a trabalhar para outra pessoa (ARTIGO 13.). Para além do direito ao trabalho e ao livre exercício da profissão, constituem direitos fundamentais dos trabalhadores, a liberdade sindical e consequente direito à organização e ao exercício da atividade sindical; o direito de negociação coletiva; o direito à greve e o direito de reunião e de participação na atividade da empresa.

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